Narrativas sobre paz, violência e poder: um olhar a partir dos jovens

Por:

Roberta Holanda Maschietto*
Marcos Alan Ferreira**
Juliano da Silva Cortinhas***

O Brasil é um dos países mais violentos do mundo. Hoje, a cada 10 minutos uma pessoa é assassinada. Destas, 54,3% são jovens com menos de 30 anos, em sua maioria negros e do sexo masculino. Em 2020, a violência letal contra menores de 19 anos aumentou 3,6%, totalizando 6122 vítimas. Ainda, tem sido crescente a violência direcionada a grupos como mulheres, crianças e população LGBTQ+. Em 2020, 60460 casos de estupro foram reportados à polícia e em 60,6% destes casos a vítima tinha 13 anos ou menos. Estes são alguns dos dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2021.

Estes dados assustadores revelam não apenas a extrema vulnerabilidade dos jovens no Brasil, como também apontam a necessidade de um maior engajamento com este público para se pensar questões de violência, paz e poder. Afinal, como podem os jovens se sentir empoderados numa sociedade em que constituem as principais vítimas de violência? Qual será a implicação social deste quadro para o futuro da nossa sociedade? Como mudar este cenário a partir das demandas dos próprios jovens?

Este post sumariza algumas reflexões que levantamos no artigo “Exploring subjectivities of peace, violence, and power among the youth in Brazil”. Dialogando com o debate mais amplo sobre peacebuilding e a virada local, o artigo apresenta os resultados de uma pesquisa realizada um pouco antes da pandemia, na virada entre 2019 e 2020, antes do fechamento das escolas. Na época nós realizamos grupos focais em nove instituições de ensino médio em Ouro Preto (MG), João Pessoa (PB) e Baía da Traição (PB). Ao todo, conversamos com 153 estudantes entre 16 e 20 anos, além de contar com uma breve atividade escrita individual.

Quatro questões pautaram nossa pesquisa:

  1. Como estes jovens definem os conceitos de violência, paz e poder?
  2. Como eles/elas  internalizam ou contestam o discurso propagado pelo presidente Jair Bolsonaro sobre a violência?
  3. Quais são os obstáculos percebidos por este público para que se atinja um estado de paz na sociedade?
  4. Quais são os meios percebidos por estes jovens para mudar as estruturas sociais de poder sem recorrer à violência?

No que diz respeito às narrativas sobre paz, este conceito foi relacionado primordialmente à dimensão interna e emocional, como a sensação de tranquilidade, se sentir bem, sem preocupação de andar na rua. Ao mesmo tempo, observou-se uma preocupação relacional importante: palavras como respeito, empatia e liberdade apareceram repetidamente, associadas à paz. Importante, houve questionamento com relação à paz ser algo atingível ou utópico, especialmente em vista da situação de violência no país.

Aliás, ao falar sobre violência, ficou claro que esta era claramente visível e concreta no cotidiano dos estudantes, sendo experienciada e observada das mais diferentes formas, tanto como violência física, quanto psicológica. Uma área de destaque, nesse sentido, foi a questão da violência de gênero. Houve muitos exemplos pessoais destacando a violência contra a mulher (inclusive assédio moral e físico) e contra pessoas LGBTQ+ (inclusive no âmbito escolar).

Além disso, houve inúmeras críticas à violência policial e à forma de se lidar com a violência no geral. Nesse sentido, a visão dos estudantes sobre a violência e suas causas se mostrou muito mais refinada e crítica do que o discurso dominante atualmente na política nacional. A vasta maioria dos estudantes se referiu ao problema da assimetria social no país e como isso contribui para a violência no dia a dia. Ou seja, ficou claro nas palavras desses jovens que responder à violência com violência não resolve a questão.

Essa percepção sobre violência, de certa forma, explica a parte da conversa sobre poder e empoderamento. Ao serem questionados sobre o conceito de poder, as definições apontaram essencialmente para relações de dominação e assimetria social. Poucas referências foram feitas à ideia de poder como uma capacidade pessoal, ou como empoderamento. Isto se refletiu nas percepções destes jovens sobre seu próprio poder na sociedade. Ao apontar que um dos grandes problemas da sociedade são as relações assimétricas de poder (i.e., temos uma elite masculina, branca, machista, capitalista), observa-se que, justamente por causa dessa assimetria é muito difícil mudar as coisas e encontrar espaços de influência.

Então, como mudar, se as próprias instituições (justiça, polícia, etc.) são cooptadas por essa assimetria?

O consenso que apareceu foi em torno da educação e da necessidade de uma educação mais crítica, que traga não apenas conteúdo curricular, mas valores distintos, que fomentem a empatia, o respeito, a cooperação. Os estudantes não utilizaram esses termos mas é o que nós, pesquisadores, entendemos como um projeto de educação para a paz que, em última instância, forneça, de um lado, ferramentas para o desenvolvimento de consciência crítica e, de outro,  apresente instrumentos que possam ajudar esses jovens a se empoderar e promover a mudança que querem ver.

De forma mais ampla, esta pesquisa contribui para o debate sobre a construção da paz e a virada local ao resgatar as vozes desses agentes que são frequentemente marginalizados em processos de paz, bem como na literatura sobre o tema. No âmbito da virada local, destacamos o quanto é importante problematizar o ‘local’ e considerar a heterogeneidade e assimetrias que existem dentro desse todo, inclusive no caso dos jovens (haja vista as diferenças de gênero, classe, raça, etc.). Por fim, destacamos o quão importante é pensar a questão do poder, não apenas pela ótica de dominação e sua dimensão estrutural — sem dúvida importante — mas também a partir da necessidade de empoderamento dos agentes para que promovam mudanças. A visão crítica já existe. Há que se investir nos meios para ampliar a possibilidade dos jovens de realizarem seu pleno potencial, contribuindo para a redução da violência (direta, estrutural e simbólica) e, assim, para a paz em sua expressão mais plena.

*Roberta Holanda Maschietto é pesquisadora de pós-doutorado no Centro de Estudos Sociais na Universidade de Coimbra
**Marcos Alan Ferreira é professor de Relações Internacionais na Universidade Federal da Paraíba
***Juliano da Silva Cortinhas é professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília

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